Friday, July 29, 2005

RIO DE JANEIRO




Rio de Janeiro, a água é a tua bandeira, agita as suas cores, sopra e retine no vento, cidade, negra náiade, de claridade sem fim, de abrasadora sombra, de pedra com espuma é o teu tecido, o cadenciado balanço da tua rede marinha, o azul movimento
dos teus pés areentos, o aceso ramo dos teus olhos.

Rio, Rio de Janeiro, os gigantes salpicam a tua estátua com pontos de pimenta, deixaram na tua boca dorsos do mar, barbatanas perturbadoramente mornas, promontórios
da fertilidade, tetas da água, declives de granito, lábios de ouro, e entre as pedras quebradas o sol marinho iluminando rutilantes espumas.

Ó Beleza, ó cidadela de pele fosforescente, romã de carne azul, ó deusa tatuada em sucessivas ondas de ágata negra, da tua nua estátua um aroma de jasmim molhado se desprende, vem no suor, um ácido pegajoso de cafezais e de frutarias e pouco a pouco sob o teu diadema, entre a dupla maravilha dos teus seios, entre cúpula e cúpula da tua natureza aparece o dente da desgraça, a cancerosa cauda da miséria humana, nos montes leprosos o cacho inclemente das vidas, pirilampo terrível, esmeralda extraída
do sangue, o teu povo estende-se até aos confins da selva num rumor abafado, passos e surdas vozes, migrações de esfomeados, escuros pés com sangue, o teu povo, para lá dos rios, na densa amazônia, esquecido, no Norte de espinhos, esquecido, com sede nos planaltos, esquecido, nos portos mordido pela febre, esquecido, à porta da casa de onde o expulsaram, pedindo-te apenas um olhar, esquecido.

Loco Neruda

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